CRÓNICA: Análise à anulação da votação no ESC 2022
Créditos da imagem: EBU / Andres Putting

CRÓNICA: Análise à anulação da votação no ESC 2022

11/06/2022 1 Por Ricardo Dias

Numa situação sem precedentes, a edição 66 do Festival Eurovisão da Canção (ESC) ficou marcada na história pela anulação de votações de júris de seis países. Saiba o que aconteceu neste artigo com a análise desta polémica pelo nosso cronista Ricardo Dias.

 

Decorria o desvendar dos resultados do júri na grande final do ESC 2022 e alegados problemas técnicos de ligação impediram que porta-vozes de três países entrassem em direto para revelarem os pontos dos respetivos júris nacionais. Algo que me soou logo muito estranho: afinal estamos em plena segunda década do século XXI. Quebras de ligação eram recorrentes, isso sim, no século passado [risos].

Decorria também a votação e a EBU emitiu um comunicado para a imprensa onde informou que anulou a votação de júris de seis países por irregularidades dos padrões de votação. Começou aqui toda uma polémica.

Terminada a grande final, não tardaram a ser publicados os resultados detalhados. Descobriu-se facilmente quem foram os visados – mesmo sem terem sido oficialmente anunciados num primeiro momento. As emissoras participantes desses países começaram a emitir comunicados de «pura inocência» [risos] exigindo explicações à EBU. Ficou a saber-se que algumas recusaram ou viram recusadas a entrada em direto porque a EBU requereu que divulgassem a votação de substituição. Caíram por terra os problemas técnicos de ligação! [risos].

Polémica instalada e a EBU continuou em silêncio. Eis que vem a emissora belga VRT (que não foi a responsável pela participação do país este ano) alegar que esses seis países combinaram entre si a troca das pontuações mais altas.

Só quinta-feira seguinte, 19 de maio – tinham passado cinco dias desde a Grande Final – é que finalmente a EBU emitiu um comunicado detalhado e revelou oficialmente as votações visadas. E quanto a isso, já lá vamos…

 

 

Antes, a EBU referiu que informou as seis emissoras ainda antes da Grande Final para investigarem os seus jurados. Afinal, quem falou verdade? As emissoras mostraram-se surpreendidas com a anulação sabendo disso em plena votação da Grande Final. Já a EBU fechou-se «em sete copas» alegadamente desde quinta-feira, 12 de maio, altura que segundo referiu o seu parceiro independente de verificação da votação detetou a irregularidade.

E permitiu que esses seis grupos de jurados votassem normalmente sem nada saberem para a Grande Final – quando, supostamente, saberia já da irregularidade. Podem não ter agido integramente ou terem sido coagidos na semifinal, mas mantê-los para a grande final foi passar um «atestado de burrice» [risos]. E, diga-se, a EBU não divulgou as votações desses júris na grande final.

Sendo efetiva e categoricamente provada a combinação, o que representaria fraude, então as seis emissoras não ficaram bem na fotografia, por se mostrarem tão ofendidas. Mas a EBU também não, porque não parece ter sido transparente em todo o processo e terá demorado a implementar medidas. E como a emissora belga – ausente da competição em 2022, ano que foi da RTBF – soube da combinação? Fuga de informação? Denúncia? [risos].

Para se ter uma ideia da magnitude, tudo isto envolve um total de 348 pontos! Obviamente é uma quantidade com grande potencial de influenciar resultados. Mas o método de substituição da votação não interferiu nos dez finalistas apurados. Da análise feita a essas votações anuladas, denota-se uma aparente combinação de resultados.

Eventualmente, uma averiguação fina e outros conjuntos de países tenham trocado pontos entre si, como alegaram alguns dos visados: por exemplo Austrália, Bélgica, Israel e Suécia. Mas, de resto, isso parece acontecer ano após ano. Até diria mais, penso que o que aconteceu é que desta vez a forma como agiram não tem precedentes [risos].

Essas votações anuladas foram substituídas pelo método de votação agregado, ou seja: votos ponderados por países com tendências de votação semelhantes. Método obtido por um algoritmo que não parece ser nada transparente – e como o classificou a emissora romena TVR, uma das visadas… – que a EBU tem para estas situações de anulação. Até porque, diga-se, a EBU teve um cuidado extremo pois isso não interferir nos dez finalistas apurados na segunda semifinal. Por isso, será mesmo que tudo foi detetado antes do culminar da segunda semifinal? Ou terá sido uma outra emissora a denunciar um caso de combinação de resultados? [risos].

Os resultados das semifinais saíram rapidamente após a grande final, mas continuo a achar estranho como o Azerbaijão teve zero pontos no televoto na semifinal e a Roménia consegue 100 pontos, tendo uma variação totalmente oposta no júri mesmo retirando os anulado. O Azerbaijão teria 62 pontos e Roménia apenas dez pontos. Não terá sido a votação arranjada, de tal forma que não interferisse nos dez finalistas já encontrados? Ou seja, foi mesmo detetado quando a EBU disse que foi? Talvez os países visados que se qualificaram, precisamente Azerbaijão e Roménia e ainda Polónia, pudessem ter tentado «corromper» novamente… quem sabe os belgas? [risos].

 

VRT (Bélgica) fala de “acordo de troca de pontos” entre júris nacionais da Eurovisão 2022
#Eurovision #Eurovisão #ESC #ESC2022

Publicado por EFestival.PT em Segunda-feira, 16 de maio de 2022

 

Não foi a primeira vez que houve anulação de votação de júri; porém nunca aconteceu em tal proporção. O método em vigor levou a uma repetição da votação entre Azerbaijão e Geórgia e entre Polónia e Roménia. Isto sucedeu porque os dois primeiros estavam no pote 3 e outros dois no pote 5 de alocação no sorteio para as semifinais, respetivamente. Já Montenegro e São Marino estavam no pote 1 e 4 e por isso não se repetiram. Ou seja, caso todos estes seis países estivessem no mesmo pote, teríamos seis vezes a mesma votação!

A polémica irá continuar e este assunto não parece estar perto de ficar resolvido. As emissoras visadas reagiram e rejeitaram as acusações de combinação sugeridas pela EBU. A romena TVR pondera mesmo agir judicialmente contra a EBU e sair do certame. Num segundo longo comunicado, lançou sérias e duras acusações ao modo de operação durante todo o processo por parte da EBU. E com razão? Quem fala verdade? Poderemos assistir mesmo a saída de alguns ou todos os países visados? Outro fator será a pressão maior para evitar situações parecidas no futuro: quem arriscará passar a «vergonha» de ter o seu voto de júri nacional anulado? [risos].

Há coisas que acontecem e acabam a despoletar reformas e alterações. A meu ver, já é mais que tempo de a EBU introduzir um novo sistema de votação. Não acredito que faça mudanças radicais para 2023, mas pelo menos um único júri internacional que substitua por completo votações anuladas numa única votação, talvez fosse bem mais justo. E já tivemos isso nas semifinais de 2008 e 2009 onde um único júri, de que nunca se soube a composição e votação, fez repescagens para um finalista fora do top nove de cada semifinal.

Apesar do padrão que aponta para uma aparente combinação entre os seis países visados, as justificações dadas pela EBU não me parecem satisfatórias. As regras vigentes sobre voto irregular são algo subjetivas e precisam de reforma também. Tanto que no limite poderíamos mesmo estar perante uma suposição de combinação! Terá sido porque Montenegro, Geórgia e Roménia não pareciam ter grandes probabilidades de passar à grande final? E o Azerbaijão e São Marino também pareciam estar no limite para o apuramento? Se fosse combinação entre países que se viam como prováveis qualificados, existiria suspeita alguma?

Por exemplo: sabia-se de antemão que a canção da Geórgia não tinha grande chance de qualificação e a sua posição expectável seria em torno dos últimos lugares. Colocar o país em primeiro lugar na votação de um júri? Poderia acontecer… repetir esse padrão de ficar no topo, quando a maioria dos outros grupos de jurados colocaram o país fora e muito abaixo de conseguir qualquer pontuação? Claramente soou muito estranho.

O mesmo para São Marino e Montenegro, por exemplo, que destoaram face aos demais jurados. E o Azerbaijão, aliás, não ficou na parte cimeira de outros júris e até em primeiro? Ao analisar outros países que saíam pontuados, temos vários casos de concorrentes diretos que também poderiam estar na zona limite de apuramento pontuados pelos júris anulados. E, diga-se, mesmo assim nunca a Geórgia e Montenegro seriam apurados. Haveria necessidade de estes dois entrarem nisso desta forma? Quando muito, deixariam corromper-se, mas não pediriam que os outros os colocassem descaradamente mesmo lá no topo. Se foi para viciar os resultados, fossem ao menos, inteligentes! [risos].

Assim, esta polémica estará longe de terminar e ficar sanada. Aliás, a meu ver abriu «feridas», não se conseguindo aferir quem foi verdadeiro e íntegro. Por um lado, temos um caso de combinação de resultados que não é único – mas sem um histórico precedente de tal dimensão. Por outro, temos um procedimento que parece errático, duvidoso e falacioso por parte da EBU. Fraude é crime! Logo, se houve algo neste sentido, mais do que anular resultados, os perpetradores deveriam ser sancionados. Mentir pode não ser crime, mas a falta de transparência e veracidade mina uma competição. A EBU deveria ter feito mais e melhor neste caso.

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