CRÓNICA: Análise ao Festival Eurovisão da Canção 2022
Créditos da imagem: EBU / Andres Putting

CRÓNICA: Análise ao Festival Eurovisão da Canção 2022

31/05/2022 1 Por Ricardo Dias

Depois da semana mais aguardada e em que tudo se decide no grandioso palco do Festival Eurovisão da Canção (ESC) 2022 , o nosso cronista Ricardo Dias analisa o melhor e o pior de mais uma edição. Ainda encontrará alguns dados curiosos sobre esta edição.

Começando pelo vencedor…

A proposta da Ucrânia é boa, sim, porém a sua vitória nunca deixará de ficar associada ao momento de guerra no país. Pelos milhões de refugiados ucranianos espalhados por toda a Europa – que certamente votaram em massa – o que foi aliado a um voto europeu de solidariedade.

Foram 28 países que atribuíram 12 pontos no televoto, um novo recorde – e isso refletiu-se igualmente num novo máximo de pontos no televoto: 439. Um dado curioso é que ninguém deu menos de sete pontos à proposta ucraniana.

Já no júri não houve uma votação tão expressiva, com a Ucrânia em quarto lugar. Não me parece que ficasse tão acima no júri como no ano passado, não fosse o momento atual. Ainda assim, o somatório deu a segunda vitória mais pontuada de sempre – refira-se que o recorde continua na posse de Salvador Sobral e de Portugal, em 2017, com Amar Pelos Dois.

A organização italiana…

Para expectativas iniciais de mau agoiro, até que o resultado final foi bom.

Pela positiva houve ausência durante as semifinais de entrevistas na green room. Algo a manter-se, para não beneficiar uns em detrimento de outros.

As atuações de abertura e dos intervalos foram de elevada qualidade e enalteceram a cultura italiana.

Pelo oposto, a organização pôs uns curtos ‘recaps’ durante as semifinais e um ‘recap’ dos apurados quando já passavam os créditos. As filmagens de ida às delegações na Green Room foram meias atabalhoadas.

Porém, foi o palco o ponto mais negativo. A estrutura do Sol Cinético que iria rodar durante as atuações, afinal não funcionou corretamente. Ficou estática, dando um fundo desagradável de se ver. A deteção (ou comunicação, pelo que consta das declarações, por exemplo da representante de Montenegro) do problema em cima dos ensaios não foi nada positiva. Fez com que algumas delegações que iriam usar o elemento cénico repensassem as atuações em cima do joelho. O palco nada de especial teve, e foi a fonte de água que lhe conferiu um toque de diferenciação. É caso para dizer que queriam inovar imenso e acabaram por inventar demais.

O trio de apresentadores esteve impecável. Com muita interação e carisma, com humor q.b., e tendo dois deles grandes performances, Laura Pausini e Mika. A presença dos três durante os anúncios de resultados foi muito bem conseguida e sem atropelos, sem relegar uma espécie de ‘secundário’ para a green room.

Apesar de cumprirem com a duração nas semifinais, a Grande Final continua a ser excessivamente muito demorada, passou de quatro horas.

 

As atuações…

Começando pelo alinhamento, é sempre questionável haver ou não favorecimentos. A preparação do palco deixou de ser só durante o ‘postcard’: alguns casos exigiram pausas entre as atuações mais prolongadas. Cada vez mais isto a acontecer, o que não acho positivo.

Globalmente, o alinhamento trouxe uma Grande Final muito dinâmica, excetuando ali na zona entre o 13.º e 18.º que ficou com atuações mais pacatas. E parece que há uma tendência para o último a atuar na segunda semifinal, ao apurar-se e sendo sorteado na primeira parte da Grande Final, irá abri-la. Voltámos a isso, depois de acontecer em 2016, 2017 e 2018.

Denotou-se de forma generalizada performances menos conseguidas nos apurados da segunda semifinal. Os artistas pareciam estar cansados e isso refletiu-se em alguns casos mesmo na prestação vocal. Deveriam repensar o jury show no dia seguinte o espetáculo final. Quem passa pela segunda semifinal e se qualifica tem quatro noites sucessivas de atuação que são pontuadas.

Regra geral, assistiu-se a boas atuações e que mereceram o seu lugar na final.

Os resultados…

Como há algum tempo não se via, houve uma votação de grandes emoções no voto do júri. Porém. depois entrou em ação o aglomerado de pontos do televoto – que como sempre trouxe algumas discordâncias significativas – sendo a principal da Moldávia que depois de ser apenas 20.ª no júri saltou para segundo no público! De referir que os representantes deste país ficaram para a história com o recorde de três participações, todas elas com qualificação para a Grande Final.

Os favoritos ficaram no topo sem grandes surpresas e sem os chamados ‘flops’. O último lugar foi totalmente previsível. E voltamos a ter uma enorme discrepância de pontos entre o topo e o fundo da tabela. Voltaram a existir zero pontos, quer do lado do júri, quer do público. E no caso do televoto começa a ser rotina tão baixas pontuações, com sete países a somarem menos de dez pontos por esta via.

Na grande final, os resultados do top dez são compreensíveis. Depois, existiram uns claros ‘favorecimentos’ vindos do júri e que já vinham das semifinais. Por isso, no fundo da tabela, alguns mereciam mais que ficar abaixo do 20.º lugar.

Itália contrariou a ideia falaciosa que o anfitrião fatidicamente acaba afundando na tabela. Teve um lugar no top10 e desde 2016 que tal não acontecia ao anfitrião.

Nota ainda para os Big 5, que têm nos últimos anos apostado verdadeiramente, porém, de forma inconstante. O Reino Unido e Espanha tiveram dos melhores resultados desde há muitos anos. Ambos foram do oito para o 80. Já a França foi o oposto e de um segundo lugar acabou agora em penúltimo.

 

As semifinais…

Com algumas surpresas nos apuramentos face àquilo que previa, mas não tanto depois de ver todas as atuações em cada semifinal. A primeira semifinal foi mais ‘morna’ e monótona, já a segunda foi muito mais apelativa.

Surpreendente foram os resultados de alguns países nas semifinais. Este ano não houve nada de renhido na zona de linha de água. O júri fez prevalecer mais a sua vontade. E é aqui que realmente é surpreendente, quiçá escandaloso, que tanto Suíça e Azerbaijão tenham conseguido qualificação pelo júri face aos seus lugares pelo público. No caso azeri é gritante: fico sem perceber como não consegue nenhum ponto no televoto e arrebata 96 pontos no júri – o que o colocou em décimo lugar e assim passagem à final.

Outro registo de nota é o resultado da Macedónia do Norte, acabando em 11.º lugar na sua semifinal. O expectável seria um penúltimo ou um antepenúltimo lugar, mas uma vez, foi o júri que alavancou. E não fosse uma votação tão expressiva no Azerbaijão, teríamos uma muito surpreendente qualificação macedónia.

 

A polémica das votações anuladas…

A União Europeia de Radiodifusão (EBU) anulou a votação de júris de seis países por irregularidades dos padrões de votação. Quer na segunda semifinal onde esses países competiram, quer depois na Grande Final. Facto que gerou e continuará a dar polémica. Para se ter uma ideia, repercutiu-se num total de 348 pontos! A propósito deste assunto irei depois apresentar aos nossos leitores um artigo em separado.

 

A terminar: próxima edição…

Pois é… com a vitória ucraniana diria que a EBU tem um berbicacho entre mãos para resolver. O país está em guerra e não tem, de todo, condições para sediar e organizar um ESC. Por seu lado. as autoridades ucranianas não vão querer ver fugir ou abrir mão da organização a que têm direito.

Ainda assim, é bem provável outro país servir de sede e organização, como já sucedeu no passado. Uma das hipóteses é o convite recair por ordem de classificação, mas Espanha já mostrou interesse, assim como a cidade de Estocolmo na Suécia. A BBC, do Reino Unido, ainda não se pronunciou, mas penso que não irá desperdiçar a oportunidade.

Para a EBU será mais fácil ter um país pertencente aos Big 5 como substituto, pois está automaticamente na Grande Final – ao qual eventualmente se juntaria a Ucrânia. Colocando um país fora deste grupo a organizar e sediar, seria injusto que o mesmo não tivesse lugar direto na Grande Final. Assim fosse e aumentariam para sete os países com lugar direto. Porém, tal já aconteceu no passado com a estreia da Austrália em 2015.

Em suma, foram três bons espetáculos, uma organização que correu bem e um ESC que ficará para a história com a ‘vitória solidária’ a um país em guerra e ainda a polémica anulação de votação do júri de seis países.

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